Dor crônica pode causar alteração na memória? Entenda a relação entre dor e cérebro
- Dra Marcela Mara

- há 2 dias
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Você já entrou em um cômodo e, por alguns segundos, esqueceu completamente o que foi fazer ali? Ou começou a falar e perdeu o fio da conversa no meio da frase? Quando isso acontece com frequência, é comum surgir aquela preocupação: “Será que estou ficando esquecida?”.
Se você convive com dor crônica, existe uma explicação que muitas vezes passa despercebida. A dor persistente não fica restrita ao local que dói. Ela exige atenção do cérebro durante boa parte do dia e pode interferir em funções como concentração, velocidade de raciocínio e memória.
Estudos científicos já encontraram associação entre dor crônica e alterações cognitivas, embora essa relação seja complexa e não signifique, por si só, que a pessoa esteja desenvolvendo demência.
Dor crônica pode causar alteração na memória?
Pode. Pessoas que convivem com dor crônica podem apresentar dificuldades em diferentes aspectos da cognição, incluindo atenção, memória e velocidade para processar informações.
Uma revisão sistemática publicada em 2025 avaliou estudos sobre memória em pessoas com diferentes tipos de dor crônica. Os resultados encontraram alterações em determinados aspectos da memória, especialmente em pessoas com dor nociceptiva e nociplástica. Os pesquisadores também observaram que o tipo de dor pode influenciar esse resultado.
Isso ajuda a explicar uma situação bastante comum no consultório.
A pessoa não necessariamente perdeu a capacidade de guardar uma informação. Muitas vezes, o problema começa antes: ela está com tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo que o cérebro não consegue prestar atenção adequadamente naquele momento.
E atenção é uma etapa importante para a memória.
Se você está tentando trabalhar enquanto sente uma dor constante nas costas, por exemplo, parte da sua atenção fica voltada para o desconforto. Uma conversa, uma reunião ou uma tarefa simples passa a disputar espaço com aquele sinal de dor que insiste em permanecer.
O resultado pode ser aquela sensação de “minha memória está péssima”, quando, em algumas situações, existe uma dificuldade de concentração por trás do esquecimento.
Por que a dor interfere na concentração e na memória?
Pense no cérebro como alguém tentando trabalhar enquanto um alarme toca ao fundo.
Mesmo que você consiga continuar a tarefa, fica mais difícil manter o mesmo nível de atenção. A dor persistente pode funcionar de maneira parecida, porque mantém sistemas relacionados à percepção e ao processamento da dor constantemente envolvidos.
Pesquisas sobre dor crônica apontam alterações em processos relacionados à atenção, memória e outras funções cognitivas. Uma revisão sistemática encontrou associação especialmente entre dor crônica e desempenho em testes de memória, atenção e velocidade de processamento.
Existe ainda outro fator importante: o sono.
Quem sente dor com frequência pode ter dificuldade para pegar no sono, acordar várias vezes durante a noite ou simplesmente não alcançar um descanso reparador. No dia seguinte, a consequência pode aparecer como cansaço mental, dificuldade de concentração e lapsos de memória.
O estado emocional também merece atenção.
Ansiedade, preocupação constante e medo de que a dor piore podem consumir recursos mentais. Quando a cabeça está ocupada o tempo todo tentando prever quando a próxima crise vai acontecer, sobra menos espaço para outras atividades cognitivas.
Isso não significa que a dor “estragou” a memória. Significa que o funcionamento cognitivo pode ser afetado por uma combinação de dor persistente, sono ruim, estresse e outros fatores que precisam ser avaliados individualmente.
Como saber se o esquecimento pode estar relacionado à dor crônica?
Alguns sinais costumam aparecer no dia a dia.
Você pode perceber que está mais distraído, esquece compromissos, precisa reler uma mensagem para entender o conteúdo ou demora mais para encontrar uma palavra durante uma conversa.
Também pode acontecer de você entrar em uma tarefa e esquecer o que pretendia fazer, principalmente em períodos de dor mais intensa ou depois de noites mal dormidas.
Um detalhe interessante é observar se existe relação entre a intensidade da dor e esses episódios.
Se a dificuldade de concentração aparece principalmente nos dias em que a dor está pior e melhora quando você consegue descansar ou controlar melhor os sintomas, essa informação é importante para a avaliação médica.
Uma revisão publicada em 2024 mostrou que pessoas com dor crônica podem apresentar desempenho inferior em testes de rastreamento cognitivo. Os autores ressaltam que a presença de dor deve ser considerada quando esses testes são utilizados, justamente porque ela pode influenciar o desempenho.
Isso é importante para evitar conclusões precipitadas.
Ter dificuldade de lembrar nomes, compromissos ou informações recentes não significa automaticamente ter demência.
Dor crônica aumenta o risco de demência?
Essa é uma pergunta mais delicada. Algumas pesquisas encontraram uma associação entre dor persistente e maior risco de declínio cognitivo ou demência ao longo do tempo. Uma meta-análise de estudos de acompanhamento, por exemplo, encontrou associação entre dor e maior ocorrência posterior de declínio cognitivo ou demência.
Outro estudo publicado em 2024 também encontrou associação entre dor crônica e maior risco de demência. Mas existe uma diferença importante entre associação e causa.
Ainda não podemos dizer que sentir dor crônica provoca demência diretamente. Pessoas com dor persistente podem apresentar outros fatores que também influenciam a saúde cerebral, como alterações do sono, sedentarismo, doenças cardiovasculares, depressão, ansiedade, uso de determinados medicamentos e redução da participação em atividades sociais.
Por isso, não quero que você leia essa informação e pense imediatamente: “Minha dor está causando Alzheimer”.
Não é assim que a ciência funciona. A mensagem mais importante é outra: alterações cognitivas persistentes merecem atenção, principalmente quando começam a interferir na rotina.
O que fazer quando a dor crônica vem acompanhada de esquecimentos?
O primeiro passo é não tentar resolver tudo por conta própria.
Vale observar quando os esquecimentos acontecem, como está a qualidade do sono, se existe relação com períodos de maior dor e quais medicamentos estão sendo utilizados. Dependendo da situação, também pode ser necessário investigar outras causas para a alteração de memória.
O tratamento da dor é uma parte importante desse processo.
Quando conseguimos reduzir a intensidade e a frequência da dor, podemos diminuir uma das fontes de sobrecarga que interferem na rotina. A avaliação também permite identificar fatores associados que podem estar piorando a concentração.
Algumas atitudes podem ajudar no cotidiano:
Mantenha horários regulares de sono, use agenda ou lembretes para compromissos importantes, faça uma tarefa por vez e anote informações que não podem ser esquecidas. Também vale acompanhar a intensidade da dor ao longo do dia e perceber se existe relação entre dor, sono e concentração.
Não espere, porém, que uma lista de lembretes substitua uma investigação quando o problema está ficando frequente.
Se houver perda de memória progressiva, dificuldade para realizar atividades que antes eram simples, desorientação, mudanças importantes de comportamento ou outros sintomas neurológicos, procure avaliação médica.
Tratar a dor também é cuidar da saúde do cérebro
Quando alguém passa meses ou anos convivendo com dor, é natural pensar apenas na parte do corpo que está doendo.
Mas a dor crônica é uma experiência que envolve o organismo inteiro. Sono, emoções, movimento, concentração e qualidade de vida podem entrar nessa conta.
Por isso, quando um paciente me conta que está mais esquecido desde que começou a sentir dor todos os dias, eu não considero essa queixa irrelevante. Ela merece ser ouvida e investigada. A boa notícia é que existem caminhos para entender o que está acontecendo. O objetivo não deve ser simplesmente “aguentar” a dor ou se acostumar com ela.
Se você percebeu alterações de memória, dificuldade de concentração ou aquela sensação de cabeça cansada junto com a dor crônica, vale conversar comigo. Uma avaliação individualizada ajuda a entender os possíveis fatores envolvidos e a definir o melhor caminho para o tratamento.





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